Segunda-feira, 12 de Novembro de 2007

Chuva


"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é."

Fernando Pessoa (1888-1935) - poeta português

O Primeiro Guarda-Chuva


“O dia de ontem foi importantíssimo na minha vida: o dia que comprei meu primeiro guarda chuva”.
Guilherme de Almeida (1890-1969) – poeta brasileiro.

Começo meu texto depois de citar acima um trecho de uma antiga crônica de um dos príncipes dos poetas brasileiros, Guilherme de Almeida. A crônica do Guilherme a qual me refiro tem o título de ‘Pluviose’ e foi publicada em 19 de janeiro de 1932 – quase ontem! Só me refiro a ela porque a situação, ou o mote inicial é parecido. E o fato é muito simples: neste último sábado acabei comprando meu primeiro guarda-chuva, assim como fez o poeta há setenta e cinco anos atrás.
Não é que eu estivesse incomodado com a chuva que caia – há tanta gente que se incomoda –, até voltaria caminhando sossegado enquanto ela caía, entretanto não poderia molhar as coisas que carregava e, como não havia outro jeito, entrei numa loja e comprei um guarda-chuva. Acabei comprando um daqueles tradicionais de tecido sintético preto – daqueles que mais se parecem com um morcego ou corvo espetado na ponta de um ferro. Preferia adquirir um daqueles coloridos, igual a um que vi num filme do Almodóvar (Tudo sobre minha mãe), colorido com vermelho, laranja, azul e verde, mas acho que as pessoas ao me verem transitando com um guarda-chuva desses torceriam nariz só porque não teriam a mesma coragem de atravessar a cidade com igual. Entretanto, não havia nenhum nessas características na loja (graças a Deus!) e a melhor opção era um guarda-chuva tradicional.
Depois de terminados os afazeres daquele sábado, voltei para casa, já no fim de tarde, de carro com os amigos e a chuva que caía “aos potes” fazia com que os carros que transitavam pela avenida Labieno jogassem longe a água da enxurrada – coitados dos pedestres naquele momento! Havia usado o meu guarda-chuva apenas umas duas vezes naquele dia, mas, ao chegar em casa, coloquei-o seguro para que mãos “profanas” não pudessem pegá-lo e, quem sabe, entortá-lo logo na primeira chuva. Que egoísmo!
Ah, retornando um pouco à crônica do Guilherme... Lembrei-me desse texto para poder para contar esse fato ocorrido comigo sem que o leitor pensasse que estivesse ficando louco ao falar de um fato tão banal (ou seria para mostrar que não sou um louco isolado?). A lembrança dessa crônica do Guilherme veio mesmo a calhar, era um bom mote para começar a escrever. Não se trata apenas de uma desculpa de falta assunto para poder puxar um outro assunto.
Bem... Se para escapar da chuva, que não cessava acabei, me protegendo à sombra das asas negras do meu novo guarda-chuva, acabei voltando feliz, pois sabia que precisávamos de chuva, mesmo que ela tenha pegado muitos de surpresa – e dentre esses muitos, eu. Depois de meses de estiagem sua volta foi muito bem-vinda, mesmo que ela tenha voltado pra valer, fazendo com que muitos ficassem em casa, dificultando a ida para o trabalho ou até quase que acabando com os encontros da noite, principalmente os da noite de sábado. Mas valeu a pena ter tomado chuva!
Sei que a água mesmo – como disse acima – tendo “caído aos potes” (também poderia dizer caído a cântaros), está cada vez mais escassa. É um fato cada vez mais preocupante... Ainda mais depois do começo desse ano quando mais más notícias sobre o clima do nosso planeta foram divulgadas: temperatura que está aumentando, rios que estão secando, reservatórios baixando, geleiras polares derretendo em ritmo acelerado e colocando em risco as regiões costeiras. É o clima que vem mudando cada vez mais rápido... E a culpa é de quem? De todos, claro!
A lista de erros que cometemos para com o meio-ambiente é muito grande, melhor nem começá-la, serão folhas e mais folhas... Se pararmos pra pensar, não são somente as grandes potências mundiais as responsáveis pela mudança do clima, pela poluição, toda essa mudança foi feita também pelos pequenos atos dos seres humanos (ex: um simples papel ou garrafa jogada num rio) e que se juntam a outros grandes: Desmatamento, queimadas, o aumento da frota de veículos movidos por combustíveis fósseis.
Tudo bem, o leitor pode pensar que, se comparado a uma indústria americana ou chinesa, a sua culpa é menor, ou que até poderia sentir-se isento de culpa, mas se juntarmos a culpa de todo mundo – inclusive a desse pobre escritor que não é melhor do que ninguém e que também não serve de bom exemplo –, aí a coisa muda. E essa coisa, meu Deus, tá ficando preta!
Mas o que fazer? Será preciso mudar os hábitos, deixar de preocupar-se só consigo mesmo, deixar de querer que o restante do mundo se lasque, e tomar medidas simples para que o clima no nosso planeta possa melhorar, como o simples de plantar árvores: E quem sabe, uma no quintal de casa, para dar sombra, frutos – só para deixar de lado essa mania de colocar concreto em tudo, criando assim pequenos fornos urbanos (só para não dizer infernos!). Quem sabe uma jabuticabeira, laranjeira ou – na preferência desse jovem escritor – uma frondosa mangueira.
E, por uma melhor qualidade de vida, até que poderíamos voltar a um tempo mais simples, quando havia mais mato, mais árvores, mais passarinhos para poder garantir que seja longa a existência dos seres humanos neste planeta.
E podemos ajudar a proteger as árvores que ainda temos, sejam as das nossas florestas, as que protegem as nascentes da água tão preciosa para a nossa sobrevivência. Ah, e não podemos esquecer as árvores das nossas calçadas, florindo o ano inteiro nas cores das quaresmeiras, espirradeiras, ipês e etc. Também não devemos esquecer de não jogar lixo em qualquer lugar para que a nossa sujeira não vá parar nos rios ou, no caso de uma chuva, não acabe entupindo as galerias fluviais.
Não é querendo estar na crista da onda de se falar em meio-ambiente, o assunto é sério, e se não fizermos nada a situação só tende a piorar. E é sempre o momento propício de se preocupar com o próximo, de fazer uma cidade melhor. E precisamos de água!
Se por um lado esperamos ansiosos pela chegada das chuvas para que os reservatórios das cidades pudessem normalizar o nível, para que o clima ficasse mais agradável, ameno, por outro há o desperdício, e é tão fácil ver pela manhã gente mal educada e egoísta lavando a calçada como se não estivesse fazendo nada de errado. E se alguém for corrigi-las as mesmas vêm nos dizer que estão pagando pela água que consomem – que consomem? Não seria a água que poderá faltar para o consumo de outra pessoa? Não seria a água desperdiçada e que escorre sem a mínima consideração pelas sarjetas só para retirar umas poucas folhas ou um pouco de terra, trabalho que qualquer vassoura do mundo – por pior que esta seja – faria melhor? Que bom seria se não usássemos da preguiça como o melhor método para se livrar dos problemas...
Mesmo que a questão do uso racional da água ainda seja uma nuvem negra que até parece que é sem solução, porque ainda há pessoas que insistem em desperdiçar, não cuidar, devemos ter certeza que podemos reverter essa situação, com pequenas soluções (exemplos: usar uma vassoura, não jogar óleo de cozinha pelo ralo da pia), pois como dizia o velho Mark Twain: Nada precisa tanto mudar quanto as manias dos outros. E as nossas manias também!
Por enquanto a situação é negra como o tecido do meu novo guarda-chuva, porém, sei que acima dele existem as nuvens – e naquele dia elas pareciam muralhas negras, e acima delas o alto céu, imensidão e, mais além, o sol. E o sol brilha sempre, mesmo estando encoberto por nuvens negras como também sei que brilha sempre uma luz no fim do túnel.

11/11/2007

Imagem do filme 'Tudo sobre a minha mãe', direção de Pedro Almodóvar.

Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007


"O homem vangloria-se de ter imitado o vôo das aves com uma complicação técnica que elas dispensam. "

Carlos Drummond de Andrade (1902 -1987) - poeta brasileiro.

Domingo, 9 de Setembro de 2007

Homo Sapiens?


Olho estarrecido para uma notícia que li num site sobre um biquíni de feito com 254 diamantes numa armação de platina e estimado em US$ 30 milhões... Mesmo que a modelo que exibe o biquíni seja, diga-se de passagem, muito linda (nessa parte não discutirei) isso não distrai o meu pensamento sobre outros assuntos tão antigos referentes à nossa “vil raça humana”.
Como que o ser humano em tão sã consciência – é o que pelo menos deveríamos ter – usa seus fabulosos inventos para criar uma peça tão cara, apesar de sua beleza indiscutível, enquanto há pessoas que morrem de fome pelos cantos desse nosso mundão de Deus.
Não estou querendo ser chato ao escrever isto – eu sou chato -, mas é que sempre vi a arte e a tecnologia como uma forma de elevar o ser humano, fazê-lo sair das trevas onde ele se encontra e, quem sabe, encontrar um pouco de luz, nem que seja uma de uma velha lamparina enferrujada que não ilumina nada, mas que combinaria com nossa posição.
Nessa ganância galopante que estamos vivendo acabamos passando por cima dos mais necessitados, e não digo de dinheiro, mas de dignidade, deveríamos pelo menos garantir que todo ser (não digo humano, pois fazemos parte da mesma família) pudessem nascer, viver e partir dignamente. Há tanta gente e tanto bicho nascendo no meio do lixo que jogamos, e também há um montão deles que morrem e se alimentam do mesmo lixo porque não possibilitamos oportunidade para todos eles.
Nos divertimos judiando somente de animais? E nisso colocaria incluso rodeios, caças e pescas predatórias, matança por diversão... Não!!! Nos divertimos judiando de pessoas que nem sabem que estão sendo levadas cada vez mais para baixo, lançadas no abismo da indigência, deixadas no fundo do poço, e sem corda (!) por pura e insana vontade de satisfazer prazeres. Assim deixamos que animais morram cobertos com petróleo e pessoas misturadas com o lixo que um dia as alimentou.
Poderíamos jogar essa culpa nas costas dos que vieram antes: Sim foram eles que não fizeram nada! Ou dizer que isso é bíblico, que a pobreza vem de há muito tempo, ou que “Deus quer que seja assim, que existam pobres ou ricos”. Tenho pavores e ataques de raiva (coisa que não gosto de ter e evito) quando ouço dizerem isso, pois sei que é uma maneira de nos eximir de tudo que acontece, deixar para o Onipotente resolver ao invés de arregaçarmos as mangas e fazermos nós mesmos o paraíso na Terra. Desde que nosso ancestral Adão descobriu-se nu não temos mais sossego, desde de Eva deixamos o Onipotente impotente por causa do livre-arbítrio.
Ah, mudar tudo isso é quase que impossível, seria a Utopia! – deve ter pensado o leitor. Na verdade, acho que estamos caminhando para isso, para utopia, mas no lombo de lentos burricos ou em cima de casinhas de lesmas, porém, estamos caminhando. Se pudermos reparar, atingimos um patamar tecnológico tão alto, nunca o havíamos alcançado, só que mesmo assim isso foi à custa de tantas guerras, de tanta morte. Hoje é inadmissível guerras, se ainda existem há forças de paz, pessoas que lutam para contê-las, acalmá-las. Não há como se ter mais os grandes impérios antigos que faziam de todos seus vassalos e escravos, vamos aos poucos depondo nossos ditadores. Vamos, aos poucos, em alguns lugares pingados do globo, criando ilhas de calmaria, solidariedade, respeito mútuo etc... Temos a faca e o queijo na mão, ou melhor, milhões de facas e queijos, só não nos alimentamos uns aos outros porque em algum lugar a corrente se quebra.
Podemos fazer com que terras antes improdutivas passem a ser um pedacinho do Jardim do Éden, onde tudo que se planta colhe – digo frutas, legumes e verduras, pois é imprescindível a questão do se pagar pelo que faz. Podemos fazer com gestos simples melhor a vida de outra pessoa, não é preciso muito dinheiro, muitas vezes nem é preciso utilizar o vil metal, pois o que é preciso é atingir em cheio e sanar de vez a necessidade. E há tanta necessidade de Amor, amor ao próximo.
Mas existe a fome na África!!! (pergunta-se de novo o leitor). Porém, a fome está bem perto de nossas casas: fome de carinho, de afeto, de atenção, de saber. Há tanta necessidade a ser socorrida e, por sermos brasileiros, podemos vê-las todos os dias em nossos telejornais. Pessoas morrem de fome no sertão do nordeste da mesma forma que se morre nos confins da África. Há necessidade de remédio para atender doentes da mesma forma que em algum lugar da Ásia. As pessoas que passam horas sozinhas por falta de atenção vivem os mesmos dramas de todas as espalhadas pelo globo terrestre porque faliu (um nunca foi erguido?!) esse castelo que chamamos carinhosamente de coração.
Fico a pensar se é mesmo preciso tanta correria, tanta vontade de juntar bens – fico a pensar porque da minha maneira também o faço – se muitas vezes nem percebemos àqueles que acabamos deixando para trás. Luta-se por empregos melhores, maiores colocações, mas esquecesse que para isso erguemos torres de derrotados como se erguem torres de impérios inteiros – o Tempo como sábio que é mostra que pela História tais torres não duraram muito.
Em nossa condição ‘humana’ vamos triunfantes arrastando nossos escravos, nossos mortos, oprimidos, desgraçados, mendigos por última escolha e saída para sobrevivência. Vamos olhando a miséria, a pobreza e todos outros males de longe, esquecendo que eles estão aqui aos nossos pés, porém, temos ferramentas para mudar um pouco a paisagem, não mudamos, pois pensamos: Quem mudaria a nossa, quem plainaria nos nossos caminhos?! Esperamos dos outros e assim vamos dando desculpas, ou concordando com tantas velhas saídas encontradas.
Não quero mudar o ser humano com este pequeno texto – nem sei se ele um dia será mudado por completo, outros maiores e mais dignos tentaram, mas não vou dizer que foi em vão, no entanto acho que o super-homem de Nietzsche ainda é um sonho distante. Também nem sei se o ser humano é digno de ser chamado de ‘homo sapiens’ que quer dizer em latim homem sábio ou homem racional (tá?!). Nessa parte também me incluo, sou feito do mesmo barro torpe que foi feita a raça humana, fui educado por ela, no entanto acho que é o dever de todos o não seguir o que é hoje ensinado de tão vazio, sórdido e mesquinho.
Claro que também não é nada fácil renegar tudo isso que temos hoje. Só que o mais importante é repensar no que estamos fazendo (ou deixando de fazer), a que fim isso nos levará. Se pegarmos as últimas notícias podermos ver que estamos caminhando para nossa própria extinção. É?!. Não pararam para ver que as mudanças climáticas estão cada vez maiores: furacões, calor, seca. Alguém diria: É o Apocalipse! Não, é a ganância humana em querer mais do que seu próprio planeta agüenta oferecer.
Ainda olho a peça em diamantes, a beleza da fêmea que o exibe é deslumbrante, mas se pegarmos para olhar ao fundo a razão pela qual aquela peça foi forjada veríamos que tudo isso seria apenas beleza, busca insana que não atingiria o Belo. Seria apenas tentativa vazia de se preencher ego. Enquanto vejo essa jóia e escrevo esse texto ou o leitor o lê nesse momento em algum lugar alguém morre de fome ou desamparado, seja numa favela do Rio de Janeiro ou na Somália; alguma árvore é cortada na Amazônia ou em Angola; algum rio da Europa ou do Brasil recebe dejetos químicos e uma espécie animal no Pantanal ou na Ásia está mais perto de deixar de existir, outra já se foi sem que ao menos pudéssemos saber de sua existência.
Não quero, e que fique bem claro, falar que o Homem não criou coisas úteis: máquinas, computadores, pontes, navios, aviões, espaçonaves. Não quero negar nossa inteligência ao desvendar os segredos da matéria, em descobrir o átomo, o rádio, o poder de certos elementos como o urânio ou na invenção de vacinas. Mas qual é o fim de tudo isso? Tudo isso foi inventado e descoberto para elevar o ser humano, tirá-lo da escuridão da ignorância ou para separá-lo por abismos de indigência? Se pararmos para pensar, ainda não atingimos em todo a condição de ‘homo sapiens’.

Terça-feira, 4 de Setembro de 2007

"Quem perde seus bens perde muito; quem perde um amigo perde mais; mas quem perde a coragem perde tudo."
Miguel de Cervantes (1547 - 1616) - escritor e poeta espanhol

Domingo, 2 de Setembro de 2007

O Grito do Ipiranga (Olhando o Quadro de Pedro Américo e Lendo Crônica de Machado de Assis)


Grito do Ipiranga. Todos já ouviram sobre essa história no nosso tempo de escola. Acho que existam poucos que ainda desconheçam a história do ‘Sete de Setembro’, uma de nossas datas máximas.
Conforme a História, D. Pedro I proclamou nossa independência, pondo fim à nossa dependência para com Portugal, mas, para que nós ficássemos livres realmente, foi preciso fazer um empréstimo à Inglaterra, começando assim nossa dependência a outros países.
Porém, ao invés de narrar esse fato, queria mesmo era comentar alguma coisa sobre um quadro em especial e no final deixar a opinião de um dos nossos orgulhos literários.
Os primeiros contatos que qualquer brasileirinho teve com esta obra deve ter sido ainda quando estavam nos bancos escolares. Lembro-me bem da minha primeira vez, até parece que foi ontem – na verdade, se for calcular pela idade corporal, foi mesmo, entretanto, se for calcular pela idade do espírito... O vi estampado no meu livro de História, a professora narrava como nossa Independência havia sido conquistada, e nós, brasileirinhos, imaginávamos àquela cena. Também pudemos assistir ao filme ‘Independência ou Morte’, com Tarcisio Meira como D.Pedro I e Glória Menezes com a Marquesa de Santos.
Ah, de lá para cá, já se passaram quase dois séculos. Entretanto o quadro de Pedro Américo, do meu livro escolar, foi pintado somente em 1888.
Todos sabem que o quadro é apenas uma alusão ao acontecimento, só que mesmo passados praticamente dois séculos do ocorrido ainda há pessoas que investigam se o tal “Grito do Ipiranga” ocorreu ou não, e não são apenas pessoas que se indagam nos dias de hoje, no fim do século XIX havia pessoas que duvidavam de sua autenticidade.
Machado de Assis, em crônica datada do dia 15 de setembro de 1876 escreve sobre este fato histórico e sobre um amigo seu, mas não diz o nome dele, que publicara algo contestando a veracidade do Grito do Ipiranga na Gazeta de Notícias. Segundo o amigo de Machado, não houve grito nenhum, o que ouve foram apenas algumas palavras, e entre elas, Independência ou Morte. O amigo de Machado ainda contestava se o grito teria sido dado às margens do córrego.
Se naquela época, cinqüenta e quatro anos após o Grito, o fato já estava tão arraigado, imagine então hoje, cento e oitenta e cinco anos depois. Não há mais como desmentir ou mudar o rumo da História de uma hora para outra e, mesmo se quiséssemos, o que seria daquelas pessoas que passaram e que morreram pensando que o tal ‘Grito’ era verdade, sem contar a pilha de livros que seriam descartados.
Pelo menos sabemos que o quadro de Pedro Américo é apenas uma alegoria, o pintor imaginou da sua maneira o que teria sido o ‘Grito’ num quadro feito por encomenda, ele era o pintor oficial de D. Pedro II, que talvez foi o maior incentivador da arte de toda nossa História.
Porém, também há passagens da humanidade que foram pintadas com cores mais vivas, senão não teriam o mesmo brilho encantador...
Será que a Guerra de Tróia aconteceu daquela maneira que foi relatada por Homero? Segundo alguns estudiosos a guerra é apenas uma lenda, ninguém encontrou vestígio do que seria a cidade de Tróia e até a existência de Homero não foi confirmada. E mesmo que seja descoberto que Tróia e Homero não existiram de nada valerá, nada irá tirar o brilho dos feitos narrados em versos.
A sabedoria popular diz que ‘quem conta um conto sempre aumenta um ponto’, e com a nossa História não seria o diferente? Tiradentes não teria aquele rosto que nós é apresentado nos livros, isso era apenas uma alusão a Jesus Cristo.
Mas tanto faz se o ‘Grito’ aconteceu ou não, a História já nos legou e autenticou o fato e se no século XIX já havia gente que discordava de sua veracidade, a melhor resposta seria dada pelo próprio Machado no fim do seu texto: Minha opinião é que a lenda é melhor do que a história autêntica. A lenda resumia todo o fato da independência nacional, ao passo que a versão exata o reduz a uma coisa vaga e anônima. Tenha paciência o meu ilustrado amigo. Eu prefiro o grito do Ipiranga; é mais sumário, mais bonito e mais genérico.
Acho que todos nós também preferimos. E mesmo que o tal ‘Grito’ fosse apenas uma alegoria isso não nos eximiria do nosso dever de respeitar e de termos orgulho do que é nosso.

Pôr-do-sol Garcense

Pôr-do-sol por sobre as casas
Perto de casa há um descampado, um dos lugares mais altos da cidade e de lá posso ver o sol se pondo. Vejo ele descer ali todas as tarde quando volto do trabalho e nesse domingo resolvi fotografá-lo.
Durante essa semana pude ver, bem de longe, enquanto voltava do trabalho, um pôr-do-sol digno do filme 'O Rei Leão', pena que não pude registrá-lo...

Quinta-feira, 30 de Agosto de 2007

Nietzsche


"O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte."



Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 - 1900) - filósofo alemão.

Os Melhores Anos de Nossas Vidas - Um Humilde Apanhado Sobre a "Década Perdida"


Toda essa crônica começou por causa de uma conversa com um amigo e onde acabamos começando um “conflito” entre gerações, ele dos anos 90 e eu, 80.
Decididamente, sou mais fã década de 80. Não porque sou saudosista, acho que apenas um pouco, ou talvez seja porque vivi nela e vejo que o que hoje vivemos é o reflexo do que aconteceu nesse tempo que se tornou passado, mas que não ficou ultrapassado.
Poucos tiveram a oportunidade de viver na transição de uma época - e os que tiveram sabem bem do que estou falando - fim da Ditadura e outros acontecimentos, como o movimento das ‘Diretas’. Uma época em que o mundo via o fim da Guerra Fria, o começo de várias bandas que hoje são sucesso, ou de ídolos que viveram e que fizeram sucesso na década de 80 e que não estão mais aqui, entre eles poderia citar o nome de Cazuza (mas ele ainda está presente!).
Definitivamente os anos 80 foram anos que marcaram época e isso tanto na música, como no cinema ou na televisão. Lembro até hoje dos desenhos animados que chamamos de ‘clássicos’ e que há tempos não passam, quem não se lembra de algum?! Ou das séries que passavam na TV? Naquela época os filmes que passam hoje na Sessão da Tarde ainda eram “fresquinhos”.
:: Na música surgiam bandas como Barão Vermelho (que tinha Cazuza como vocalista), Titãs, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor, RPM, Engenheiros do Hawaii, Ira!, Kid Abelha, Capital Inicial, Camisa de Vênus, Nenhum de Nós, Biquíni Cavadão e a Blitz; quem já não ouviu falar dessas bandas, ou pelo mesmo não ouviu uma música daquela época ou o trabalho deles hoje? Sem falar nos cantores que surgiram nessa época, como Lulu Santos. Ou de bandas internacionais, como o U2, Guns 'n Roses, Metallica. O surgimento da cantora Madonna. E tudo isso só na música da década de 80. Sem contar os sucessos de bandas e cantores de outras épocas que aconteceram na “década perdida”.
:: Na Televisão, programas e comerciais que marcaram época. Quem não se lembra do baixinho da Kaiser? Pelas minhas pesquisas, ele surgiu em 1984 (e eu tinha apenas dois anos!). O comercial do 1º sutiã (1987), com a atriz Patrícia Luchesi que tinha 11 anos - hoje ela teria (melhor deixar pra lá). E o garoto ‘Bombril’, - criado por Washington Olivetto e Francesc Pettit - Carlos Moreno foi considerado o mais importante garoto propaganda da década de 80 (e ele voltou a fazer os comerciais). Os programas de televisão foram bem variados, desde o humor de TV Pirata à Armação Ilimitada, passando pelo auge dos Trapalhões, formados por Dedé, Didi, Mussum e Zacarias (e os dois primeiros ainda estão na ativa e repetindo um humor não muito diferente).
:: E os desenhos “clássicos”: He-man, Thundercats, Caverna do Dragão, Os Herculóides e outros mais. Ainda não havia acontecido a invasão, em massa, da TV brasileira pelos desenhos de mangá (isso só seria na década de 90), mas duas séries japonesas “bombavam” por aqui e continuavam com o estilo de National Kid, dos anos 60, as séries eram Jaspion e Changeman, novidade da extinta TV Manchete. Nessa época a séries mexicanas ‘Chaves e Chapolin’, de Roberto Gomes Bolaños eram as “novas atrações” do SBT. Qual criança da década de 80, 90 e dessa em que vivemos não assistiu ‘Chaves e Chapolin’? E mesmo que as pessoas torçam o nariz, não há como negar que essas duas séries mostram os problemas da nossa América Latina.
:: Nos quadrinhos surgia ‘Radical Chic’, personagem de Miguel Paiva, onde uma mulher independente, solteira e moderna falava sobre seus relacionamentos. ‘Chiclete com Banana’, de Angeli; ‘Geraldão’, de Glauco; e ‘Piratas do Tietê’, de Laerte surgiam no fim da década e ainda hoje são publicadas diariamente nos jornais de todo Brasil. Também surgia ‘Níquel Náusea’, de Farnando Gonsales, onde um rato é a antítese de Mickey Mouse, sem contar uma vasta fauna, que passam por baratas, cachorros, coelhos e morcegos satirizando os costumes do seres humanos. E a criação de ‘Sandman’, de Niel Gaiman.
:: E para finalizar, cinema. Sociedade dos Poetas Mortos, Lagoa Azul (já perdemos as contas do quanto foi reprisada, sem contar a paciência!), Carruagens de Fogo, Os Caçadores da Arca Perdida (Indiana Jones), ET - O Extraterrestre, Karatê Kid, De Volta Para o Futuro, Robocop (que era o máximo em efeitos especiais!), Máquina Mortífera, Uma Cilada para Roger Rabbit. Quem não assistiu a um destes filmes, e pelo menos uma única vez?
Pra quem viveu nessa época sabe muito bem o que eu estou falando, mas para quem não viveu só sobra a conversa, fotos das lembranças dos que viveram nesta que é chamada a “década perdida”. Mas acessem a internet, existe um monte de sites a respeito! E será que foi mesmo uma “década perdida”? Acho que esqueceram de nos consultar quando a batizaram com esse rótulo. Vocês da década de 90 e da primeira década do século XXI vão sentir algo muito igual. Perguntem para o pessoal das décadas de 70, 60, 50 e outras se não é assim...
Sei que a melhor época é aquela em que estamos vivendo e que existem algumas que marcam uma única pessoa, mas há outras que marcam uma geração inteira.

Terça-feira, 28 de Agosto de 2007

Foto do Dia




Florada de fim de inverno em casa: Manacá e Chuva-de-Ouro.

Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007

Orgulho de ser sãopaulino


Modelo: Gisa Wiatrowski

São Paulo 5 x 0 Náutico


Acho que não preciso dizer mais nada...

Mark Twain


"Vamos agradecer aos idiotas. Não fosse por eles não faríamos tanto sucesso."

Mark Twain (1835 - 1910) - escritor e humorista estadunidense.

Carta para Nelson Ichisato

“Cerejeira em flor —/ De tanto olhar até doem/ Os ossos do pescoço.” Nishiyama Sôin (1605-1682) – Poeta japonês.

“Debaixo de uma cerejeira/ Tudo é servido/ Decorado com flores.” Matsuo Bashô (1644-1694) – Poeta japonês.

Ohayou gozaimasu (Bom dia).

Ainda não consegui acreditar que na noite do dia 21 ao convidá-lo para a homenagem que faríamos ao poeta Letterio Santoro o senhor deu seu sim. Não que eu esperava uma resposta negativa, mas estava telefonando para o “Pai das Cerejeiras”, pessoa que tenho grande admirção, alguém que colocou esta cidade no mapa ao plantar despretensiosamente as cerejeiras do Lago.
E também não estou acreditando no que fizemos na noite que se seguiu quando Daniela Maria da Silva, Edílson, Fábio Martins e Duliana Peres da troupe teatral Imagen/Ação e mais este relez cronista nos dirigimos até sua casa para buscá-lo e o encontramos de terno, pois para o senhor era uma grande honra ser convidado para homenagear um grande amigo. E nos dirigimos para o Lago, o “Pai das Cerejeiras”, quatro atores vestidos de palhaços (clown’s) e um aprendiz de poeta, com a intenção homenagear os cinqüenta anos de atividades de um poeta nato e que daquele dia em diante passaria a ser conhecido por todos como o “Poeta das Cerejeiras”. Tudo isso porque homenagear o talento ainda vivo é preciso, nunca homenageá-lo em vida e só lembrá-lo depois de morto, depois que toda fibra descansa inerte na terra fria é como tecer um eterno pedido de desculpas; o que é dispensável do ponto de vista do homenageado.
Quando havia telefonado para o senhor na noite anterior ao evento falei que a homenagem seria apenas para o Letterio, esqueci de mencionar (propositadamente) que ela também se estenderia ao senhor; como também havia falado ao Letterio que a troupe estaria indo se apresentar caracterizada no Lago e que iriam ajudá-lo na entrega dos poemas às cerejeiras que ele confecciona há treze anos e os entrega pessoalmente aos visitantes. Tudo bem... Foram pequenas mentirinhas e esquecimentos para um nobre fim.
E durante aquela noite – enquanto todos corriam pra lá e pra cá em busca de algo para comprar nas barraquinhas, no meio do jardim plantado por ti, poetas, escritores, atores, gente de toda arte, seus familiares, amigos e pessoas que por ali passavam e que por curiosidade pararam para assistir acabaram vendo a homenagem feita ao “Poeta das Cerejeiras” e ao “Pai das Cerejeiras”; tudo feito de maneira simples, porque são de gestos simples que são feitos os momentos eternos e que ficam na memória.
Mas esta história é mais longa, já tem quase três décadas. Não a vi começar, mas lembro de quando eu e meus primeiros amigos, ainda pequeninos e nos primeiros anos da vida escolar, éramos levados até o Lago no antigo trenzinho, lá brincávamos no parquinho e andávamos de pedalinho e também éramos levados pelas professoras para ver as cerejeiras que não eram tão frondosas como hoje – éramos novos, as cerejeiras também: como o tempo passa?! Em meados dos anos oitenta o Lago tinha outra cara, havia ainda a casa do zelador e não havia aquele alambrado que está ao lado da calçada.
Naquela época, podíamos andar sobre as pedras e ver de perto os peixes, tentar pegá-los com a mão ou levar pão duro para alimentá-los. Nem sabíamos, mas já estávamos sendo ensinados sobre a importância da preservação do meio-ambiente. Tempos depois, quando já tinha mais idade, fiquei sabendo que aquelas cerejeiras foram plantadas porque um senhor vindo do Japão queria plantar as árvores de sua terra para matar a saudade que sentia do seu lugar de origem. Claro que no começo muitas pessoas duvidavam que elas iriam sobreviver, mas com o cuidado que receberam elas cresceram, floresceram e até hoje nos encantam.
Penso que esta é uma história que todos garcenses deveriam conhecer, pois para mim é incrível pensar que enquanto existem pessoas que fazem da vida das outras um inferno, existem algumas (poucas) que preferem cultivar a paz, e nesse pequeno grupo há outras – e essas são raríssimas e dignas de admiração, e estas preferem cultivá-la plantando aqui mesmo nessa terra de tanto sofrimento um pedaço do Jardim do Éden... Um pedaço especial do Jardim Eterno, talvez uma estrada, um caminho com cerejeiras sempre floridas para os eternos namorados ou um local onde possamos parar e meditar, juntar os amigos para conversar sem se preocupar com o tempo, pois só existiria um pequeno espaço entre o momento presente e a eternidade.
É tão bom saber que um senhor que se encontra no alto dos seus tão bem vividos oitenta e sete anos ainda planta, cultiva e colhe os frutos dos seus sonhos enquanto muitos já perderam as esperanças e trilham caminhos equivocados e vazios. No Lago posso parar muitas vezes para descansar, meditar, ou ler, ver nas manhãs de domingo os cidadãos garcenses fazendo caminhada, ver a névoa que paira por sobre as águas. Durante a noite posso ver os amigos reunidos para conversar, os namorados.

Na verdade o bosque que foi plantado por ti em volta do Lago é hoje ponto de encontro, orgulho de todo garcense. Lá podemos encontrar os amigos ou até mesmo encontrar um amor. E isso não é algo bem parecido ao que se faz na terra do Sol Nascente quando as famílias ou amigos se reúnem embaixo das cerejeiras para celebrar os laços que os unem? Também ia até lá, nos tempos da minha adolescência, para desenhar. Passava horas e horas sentado à beira do Lago desenhando, vendo as árvores, as aves com os lápis-de-cor espalhados pelo gramado. Hoje já não tenho tanto tempo, divido o tempo entre a faculdade e o trabalho, mas vou ao Lago nos fins de semana para descansar a alma, recarregar as forças para mais uma semana de correria e rever a paisagem que já faz parte da minha alma.
Mas claro que nessas horas também há o desgosto de ver como algumas pessoas com seus gestos suínos tratam o Lago, é só dar uma pequena volta para se deparar com latinhas de cerveja, garrafas Pet, papéis e mais papéis, até já encontrei uma vez com uma pizza inteira boiando nas águas. Ainda há pessoas que não ignoram a presença das lixeiras instaladas em volta do Lago e em alguns pontos entre o bosque das cerejeiras. Fazer o quê? Cada um tem a consciência que cultivou... Cada um colhe o fruto que planta...
Das novas lembranças que guardarei daquele local há a de um dia em que um grupo de amigos formado por jovens artistas garcenses, entre eles alguns integrantes da APEG e do Imagen/Ação, se reuniu na beira do lago, para conversar, cantar, celebrar a amizade de forma simples: iluminados por um lampião, tomando um bom vinho e refrigerante, vendo a lua cheia refletida nas águas enquanto um amigo (Rafael de Souza) tocava seu violão acompanhando o canto de Daniela Maria da Silva. Uma noite ótima que pensamos repetir nestas férias e, quem sabe, durante muitos anos de nossas vidas. Se as cerejeiras foram plantadas com o intuito de fazer com que as famílias e amigos daqui do ocidente pudessem repetir o que é feito no oriente, posso dizer que isto se concretizou.
E quando chega uma nova florada mais e mais pessoas vêm para celebrar algo que parece que já faz parte do Japão desde sempre, como pude ver nos haicais de Nishiyama Sôin e Matsuo Bashô do século XVII e de tantos outros que celebraram a primavera japonesa. Haicais que aprendi a fazer por ter ilustrado uma exposição de Letterio Santoro e que hoje também componho em louvor das cerejeiras. A cada florada ou a cada visita ao Lago acabo compondo outros e estes novos vão se juntando aos meus humildes “Haicais das Cerejeiras”. As cerejeiras estão presentes também na obra de tantos artistas garcenses. Teria outras coisas para falar sobre a minha convivência com as cerejeiras, e que vem sendo cultivada desde pequeno, pois nasci durante uma dessas floradas, na verdade, numa das primeiras, no início de uma manhã fria de inverno.
E como estava comentado com a Veridiana Sganzela Santos, deveria escrever algo para falar disso, algo como uma carta de agradecimento. Deveria falar, como também estávamos comentando no dia da homenagem (Veridiana, Duliana, Fábio, Fernanda de Souza e eu), que havíamos feito algo que entraria para a História da nossa cidade e que seria uma história para lembrarmos para o resto das nossas vidas, pois naquela noite havíamos levado o “Pai das Cerejeiras” para homenagear um amigo, para que ele também fosse homenageado por artistas de todas as idades – gente que viu aquelas cerejeiras serem plantadas e gente que cresceu com elas, e que isso seria uma história para contarmos para nossos filhos, netos...
Como havia falado durante o evento sobre a minha geração que cresceu vendo aquela paisagem e que hoje se dirige até lá para encontrar os amigos durante a noite ou aos fins de semana: Minha geração deve muito ao senhor que plantou as cerejeiras. O senhor que plantou a paisagem que levarei pela vida inteira e por onde quer que eu vá...

Sayonara (Até logo).

Texto publicado no Jornal Comarca de Garça em 14/07/2007

Foto: Cerejeiras do Lago J. K. Willians, em Garça.

Domingo, 26 de Agosto de 2007

Oscar Wilde


"Toda a gente é capaz de sentir os sofrimentos de um amigo. Ver com agrado os seus êxitos exige uma natureza muito delicada."

Oscar Wilde (1854 -1900) - dramaturgo, poeta e escritor irlandês.

O Sofá dos meus Sonhos


Modelo: Bruna Alvin

A Cidade dos Meus Sonhos


Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo... / Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer / Porque eu sou do tamanho do que vejo / E não, do tamanho da minha altura... Fernando Pessoa (1888 - 1935) - poeta português.


Acessei dias atrás a comunidade do Orkut referente à Garça e encontrei no seu fórum um pequeno tópico com o nome de “A cidade dos meus sonhos”. Infelizmente apenas alguém comentou alguma coisa complementando o que a pessoa que criou o tópico disse, ninguém quis mais participar dando seu comentário sobre a nossa “tão nobre e fiel cidade de Garça”. Alguns preferiram comentar o que nossa cidade precisava, algo como um Mac Donald’s, um shopping ou lugares diferentes para se ir aos fins de semana, excluindo dessa forma o Lago, o Grêmio e o Tênis. Quem falou sobre isso outro dia foi a Veridiana Sganzela Santos, e ela está recolhendo essas “pérolas” para alguns de seus escritos.
Bem... Se a cidade que estes garcenses querem seja uma Garça cheia de arranha-céus, com McDonald’s em cada esquina, shoppings centers a se perder de vista, shoppings iguais àqueles que vemos nos grandes centros. Se for assim, então comunico que estou fazendo às malas, pois sempre vi isso em outras cidades como um lugar para quem tem como pagar luxo e não quero isso para a minha cidade, não quero algo que seja acessível apenas para alguns poucos que tenham poder aquisitivo. Na verdade, vejo isso tudo, MacDonald’s e shoppings, como um monstro sem cabeça de nossa sociedade moderna, consumista ao extremo e que pagaria até pela alma dos outros se estas tivessem preço de troca. No caso do McDonald´s, se paga muito para se comer pouco, não seria melhor continuarmos com nossos carrinhos de lanches ou nossas lanchonetes porque o melhor mesmo é ter um lugar para se levar amigos ou namoradas e se divertir?
Quero, antes de tudo isso, um lugar bonito para se viver, calçadas por onde possa caminhar sossegado, quero parques e praças onde possa namorar e, quem sabe, daqui alguns anos levar meus filhos para um passeio. Não digo que viverei minha vida inteira aqui, mas se por acaso vier a sair, seja a trabalho ou por outras razões, ficaria feliz em voltar sempre para visitar amigos, rever prédios de minha infância, caminhar por suas ruas...
Não quero voltar para cá e ver a imagem que tinha de minha cidade arranhada, não quero ver prédios antigos demolidos, mas quero ver progresso, pessoas indo para o trabalho, comércio fervilhando de vendas, estudantes indo para escola, universitários correndo do trabalho para faculdade em busca de um futuro promissor. Quero ver o novo e o antigo caminhando juntos.
E, por sermos de uma cidade com raízes rurais, também quero que as diversas culturas plantadas aqui dêem certo, que ainda possamos passar pelas estradas, indo ou voltando de Garça, e avistar as imensas plantações que se perdem de vista, a florada do café, ou o pasto, que está tomando conta da paisagem, com gado forte, rebanho numeroso. Desejo que não percamos esta alma caipira e que não tenhamos a vergonha de dizer que temos um pé na roça, pois quem esquece o seu passado vive pela metade o presente e nem tem noção do que será seu futuro.
Falando em futuro... Também quero uma cidade com os pés na modernidade, com trabalho para todos, saúde e educação acessíveis a todos. Não quero megalomania de shoppings gigantescos em que as pessoas só irão poder ir para olhar vitrines. Quem sabe, um dia, tenhamos isso tudo, McDonald’s e shoppings, mas acho que por enquanto tudo isso é sonho de garças ingênuas sobrevoando o país dos sonhos...
E se o progresso chegar, e ele está chegando, que ele não tire esse ar de cidade do interior, pois ainda quero ter em minha mente a sua imagem, seja ela a de quando vou para o trabalho e vejo o nascer do sol por sobre as casas ou o por do sol por sobre as fábricas, que ainda seja possível reunir aqui os amigos para um bom bate-papo. Ainda quero dessa cidade a mesma imagem que tive ano passado ao voltar de Bauru quando a vi surgindo por detrás de uma montanha, iluminada ou de quando voltava de outras viagens e a avistava pequena no fundo do horizonte, tinha uma sensação de alívio, de estar voltando pra casa, e, por se tratar de Garça, porque não dizer que sentia a sensação de garcense voltando pro ninho? Quero ainda ter essa imagem da minha cidade se esparramando iluminada pelo solo, a mesma imagem que tenho quando olho da janela da faculdade em que estudo.
Quem sabe? Mas bem que poderíamos dizer como disse um dia, nas palavras de Carlos Drummond de Andrade, “a pessoa mais importante de Goiás”, Cora Coralina, poetisa que morou aqui nesta terra e que em um de seus poemas exalta nosso chão, nossa gente: Creio em Garça e na sua gente. / Creio na força do trabalho / como elos e trança do progresso.[...] Exalto o passado, o presente e o futuro de Garça / no valor da sua gente, / no seu constante poder de construção. Poderíamos, por um momento, deixar de sermos filhos ingratos e olharmos nossa cidade de outro ângulo, pois não sofremos as mesmas tragédias que outras cidades sofrem, apenas sofremos as incertezas que todo morador de cidade pequena sofre e que na comunidade referente à Garça no Orkut já responde: a falta do que fazer nos fins de semana. Existem outros problemas? Claro que existem, só que para a solução deles será preciso o emprenho de cada garcense.
Não será um McDonald’s ou um shopping que trará a felicidade a todo garcense, mas a participação de cada um para a construção da cidade dos nossos sonhos, lugar que, mesmo tendo ares de progresso, seja acolhedor, bom para se viver, porque, um dia, acabaremos nos cansando de tanto oba-oba e aí, o que restará?
Noite dessas rabisquei alguma coisa, nem pensava em continuá-la, era apenas um pequeno pensamento com pouca pretensão, nem sabia que ia encontrar um tópico no Orkut falando sobre isso, mas depois de ler alguns dos comentários escritos na comunidade de Garça, começar a escrever este texto e procurar o trecho do poema da Cora Coralina resolvi fechar esta crônica com ele. Não sei se ficou bom, mas como Luiz Fernando Veríssimo diz que o cronista é como galinha, bota seu ovo regularmente e como eu sou uma galinha ciumenta por demais com minha crias, pelo menos tenho que ser o único a me orgulhar delas. Acho até que ficou um pensamento regular, digno de algum orgulho. Também não sei se alguém já pensou nisso antes, mas sei que nunca se expressou com minhas parcas palavras... Então, para encerrar, registro ele: A nossa cidade pode não ser a cidade dos nossos sonhos, entretanto, não devemos nos fixar no que ela pode ou tem a nos oferecer e, sim, no que temos e podemos oferecer a ela.

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007

Valeu a Pena


"As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido. "

Fernando Pessoa (1888 -1935) - poeta português.
Imagem: Retrato de Fernando Pessoa, da autoria de Almada Negreiros.

Domingo, 19 de Agosto de 2007

Mais que Excêntrico

Posso dizer, depois de ver essa foto do pintor Salvador Dalí (1904 - 1989), que os artistas se dividem em tímidos, excêntricos e Salvador Dalí.
Dalí criou uma personagem que vai além dele mesmo... Que vai além do pintor, mas que não abala a imagem do pintor, porque esse é essencial para se compreender a arte como um milagre e o artista como um deus que realiza o Big Bang da Criação com apenas um pedaço de papel em branco ou uma tela esperando para ser pintada.
Excêntrico, talvez... Eu diria único, sem comparação, difícil de ser imitado...

Ou Toca, ou não Toca


Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca.” Clarice Lispector (1920-1977) – escritora brasileira.


Aconteceu algo de diferente em minha vida, não sei explicar ao certo porque as palavras não me bastam e o sentido delas dependerá muito de quem as lerem. Talvez seja isto o que mais aflige um escritor ou um poeta, acho que deve afligir mais um poeta, os poetas fazem amor com as palavras... Nunca sabemos o quanto nossas palavras tocam quem nos lê, nunca sabemos se a mensagem foi passada, se foi entendida e assimilada.
Mas como leitor, não sei se um bom leitor, sempre tentei aproximar-me com os escritores e poetas que, não sei porquê, tinha mais intimidade. O poeta gaúcho Mario Quintana em carta a um jovem poeta já dizia que nos aproximamos dos nossos poetas irmãos. Por algum motivo lemos determinado escritor, mas não conseguimos ler outro, ou até conseguimos lê-lo, mas não como o prazer de ler outro escritor. Para Quintana os poetas e escritores têm simpatia por aqueles que fazem parte de sua mesma árvore genealógica.
Ainda pensando no que Quintana escreveu. Leio escritores antigos que a poeira do Tempo ainda não conseguiu cobri-los com certo prazer às vezes muito maior do que para os que ainda estão vivos. Entretanto, só para exemplificar, leio um livro que amigo me recomendo por ter gostado muito e não consigo achar o que o atraiu para tal leitura, mas devo confessar que a recíproca é verdadeira. Exemplificando novamente, pego um livro que o mundo inteiro fala que é bom, daqueles livros recomendados para todos, mas não consigo passar das primeiras páginas. Não culpo o escritor ou o poeta por isso, sempre digo para mim mesmo que ainda não estava maduro o possível para tal leitura.
Aqueles que não gostam de ler devem já estar falando: Ah, ele confessou que também sente dificuldade para ler determinado livro! Confessei, sim. Sinto dificuldade em ler, e não é só o escritor de alto nível: Victor Hugo, Edgar Allan Poe, Lampedusa ou Flaubert. Também a sinto ao ler nossos contemporâneos. Em compensação, leio Machado de Assis e me divirto muito, leio Shakespeare fascinado e imaginando cada cena, rolo de rir com os pequenos textos Mark Twain no ‘Dicas úteis para uma vida fútil – Um manual para maldita raça humana’ e me compadeço pelos meus semelhantes após uma pequena leitura de Dostoievski ou Tolstoi.
Acho que deve ser assim com todo mundo. Pelo menos deveria ser. Havia citado anteriormente Mario Quintana, ele é um dos meus poetas preferidos, e Quintana, nas palavras de Ernani Só, não foi simplesmente um poeta, mas poeta adjetivado: grande delicioso. Mais: dos poucos que, além de admiração, causam amor. Sempre sou levado para uma esfera surrealista quando leio Mario Quintana, não sei o porquê, talvez ele seja um dos meus irmãos... E há outros irmãos que de quando em vez acabo visitando nas horas vagas, a vida está muito corrida ultimamente. Conquanto me acostumei a visitar Carlos Drummond Andrade, Manuel Bandeira, Florbela Espanca, Baudelaire, São João da Cruz, Cruz e Sousa, Cecília Meireles, etecétera e etecétera. Ah, esses meus velhos amigos que tem o poder de causar amor, quem me dera um dia ser um desses poetas!
Esta mágica que as palavras tem em fazer com que seu leitor seja transportado para um local distante em senti, ainda jovem, ao ler ‘Caçadas de Pedrinho’ de Monteiro Lobato. Eu era o Pedrinho, eu caçava saci!!! Mais tarde fui sentir algo semelhante ao ler a obra de Cecília Meireles, sentia aquela mesma solidão, meus olhos viam o efêmero e o precário em tudo e meus escritos dessa época, por causa da leitura dos livros da poeta, estão recheados de suas palavras preferidas, e que depois elas se tornaram minhas também.
Esse é o encanto que as palavras nos trazem, e algumas têm o poder de nos salvar, isso no caso do leitor. Já os poetas fazem amor com elas... Fazem amor com as palavras preferidas de seu repertório, ou as exóticas pelo seu encanto misterioso e com as novas que vamos descobrindo lentamente seu significado. As palavras tem o poder de nos salvar, nos remeter à lugares distantes num pequeno instante de um parágrafo e um ponto final.
E, ainda nisso, posso citar novamente Clarice Lispector porque o problema está no sentir em tocar, o problema do que escrevemos, pintamos, cantamos, compomos está resumido num pequeno porém: ou ele (o trabalho) toca ou não toca, é só uma questão de sentir, de tato. E só no momento em que sentimos é que sabemos que tal trabalho nos salvou.
Bem. Essa foi sempre a impressão que sinto com o que leio, com o que escrevo é sempre a experiência da criação, do manejo com as palavras para passar uma mensagem, para imortalizar um momento, para poder visitá-lo novamente todas as vezes que releio um dos meus escritos como que recorda de um sentimento. Nesses casos ao ler um dos meus escritos da adolescência posso sentir como amava e como esse sentimento é tão diferente de hoje, mais calejado, talvez mais maduro ou experiente... Talvez, sempre se ama pela primeira vez...
Mas nunca havia sentido a reação direta do leitor, como ele se porta perante a algo que havia escrito, pelo menos dito pessoalmente. Sempre há aquela barreira entre leitor e escritor, quem sabe fina membrana ou ponte intransponível que só é rasgada ou transposta quando se entra em contato. Se não me engano era Carlos Drummond Andrade que dizia “que a palavra é metade de quem lê e metade de quem escreve”, nesse caso fica difícil saber se o que compomos foi entendido, temos apenas uma pequena noção, conquanto se isso aflige os grandes escritores que o diga nós, reles mortais.
Claro que temos o contato com nossos amigos que falam que leram o que escrevemos, seja no jornal ou em blogs, mas como sempre digo aos meus amigos para que eu desça ou não me coloquem em pedestal: Não leiam o que eu escrevo, é porcaria. Digo isso, mas tenho a completa consciência de que escreve quer ser lido e compreendido. Há também as notícias que chegam de parentes que falam que um amigo deles havia lido o que escrevi no jornal, e-mails que chegam respondendo algo, recados no Orkut; há alguns dias uma amiga da minha avó ligou em casa e conversou com minha mãe a respeito de algo que escrevi. Até algum tempo eu me revestia de um muro de concreto, talvez para me preservar, igual a quem quer ser duas pessoas, sempre preferi que o meu eu escritor fosse dissociado do eu real, mesmo sabendo que os dois são um só, como quem quer se esconder, fazer com que os outros não saibam quem é que escreve tais textos.
Nesse se esconder há alguns fatos até engraçadinhos, um dia indo comprar revistas na banca, vi duas pessoas conversando e lendo o jornal, e não é que estavam falando sobre o que eu havia escrito, ouvi isso sem me manifestar só para ver se haviam críticas ou, na pior das hipóteses, elogios (fujo sempre de elogios), comprei minha revista e voltei para casa. Outro foi ao abrir uma conta numa loja e ao preencher o cadastro tive que falar meu nome e ao falar o primeiro a atendente tratou logo de falar o restante como quem faz uma brincadeira, para o espanto dela acabei confirmando, ela começou a falar, falar e eu fiquei encabulado – querendo me esconder em algum refúgio dentro da minha timidez, terminei de preencher a ficha e sai da loja com o que havia comprado. Como havia dito não consigo associar o escritor, nem o artista-plástico com o eu normal que vive sua vida, que estuda e trabalha normalmente como todo mortal. Prefiro que os outros eus apareçam enquanto o criador fique à salvo: Podem falar que é um sinal de loucura, também acho.
Passei por estes acontecimentos até poucos dias quando uma senhorinha veio até o lugar onde trabalho para falar de um certo ‘Soneto à Florbela Espanca’ que havia publicado. Estava saindo para o almoço quando um dos meus colegas de trabalho interrompe o que estava fazendo para dizer que havia alguém querendo falar comigo. Pensei que fosse um conhecido, mas eis que surge aquela senhorinha que me cumprimento e perguntou meu nome, e começou a falar sobre o tal soneto, disse-me que havia lido Florbela Espanca em sua juventude nas cartilhas escolares e que isso a marcou muito, que depois disso nunca mais havia ouvido ou lido falar sobre a poetisa portuguesa que havia lido ainda jovem, e comentou com que alguém tão jovem havia de ler uma poeta da década de vinte... Nesse momento acabei despencando, por dentro, de onde me encontrava, senti que poderia tocar quem me lê.
O que havia escrito fez com que aquela senhorinha lembrasse de seus tempos de escola, fez com que ela voltasse à juventude e se lembrasse de algo que a fez se sentir bem. Acabei com isso tocando alguém fora do meu círculo de amizades, toquei alguém que até então não conhecia e que se manifestou. Não estou querendo com isso excluir as outras pessoas que comentam e que mandam recados, e-mails ou os amigos que dão suas opiniões e trazem as tão bem-vindas críticas, mas é que o fato ocorrido me fez pensar melhor sobre minhas responsabilidades de “artista”. Coloco a palavra artista entre aspas por não saber se ainda tenho o direito de usá-la.
De agora em diante olharei com mais cuidado e carinho para com o que escrevo, pois como havia dito as palavras tem o poder de nos salvar, mas também podem nos levar à perdição. Se agora estou a pensar em frente ao computador, apagando e digitando, querendo compor algo agradável e legível, penso que para alguns isso tenha importância, para outros nenhuma, e para mim, reles “juntador” de letrinhas que olha para a janela do quarto e tenta buscar um pensamento numa nuvem distante: Ainda é possível alcançar a Poesia...


Imagem: Mulher Lendo de Pierre-Auguste Renoir (Museu do Louvre).